Por João Mattos e Silva Aproxima-se o início das comemorações oficiais do centenário da república. A Comissão nomeada pelo actual presidente, Prof. Cavaco Silva, composta de “
republicanos moderados”, onde até há uma conhecida personalidade ligada à Igreja, para evitar desmandos jacobinos e uma historiadora da arte, certamente para historiar a “
arte” com que os republicanos assaltaram o poder legítimo, lançou há poucos dias um Portal que além de nos dar a conhecer a Comissão de Honra e a Comissão Consultiva, onde ombreiam o Grão – Mestre do GOL e um prelado católico, a par de outros republicanos irrelevantes, pouco mais diz. Porque pouco mais tem a dizer.
Aproxima-se o início das comemorações da implantação da república e eu ainda não percebi muito bem o que se quer comemorar. A revolução lisboeta que impôs a república pelo telégrafo ao resto do país, amolecido pela demagogia e indiferente perante o descalabro a que os partidos da Monarquia tinham reduzido a política? A I República das constantes revoluções, dos assassinatos dos seus heróis revolucionários e de um Presidente da República, da perseguição à Igreja Católica, dos presos políticos, da polícia política chamada pelos próprios republicanos “
formiga branca”, da negação do voto das mulheres, da bancarrota, da participação na guerra europeia para, com milhares de mortos, consolidar o regime aos olhos internacionais? As ditaduras, do Partido Democrático de Afonso Costa, de Sidónio Pais, dos militares que, em 28 de Maio, saíram vitoriosos de uma “
Revolução Nacional”, porque o povo estava farto da “balbúrdia sanguinolenta” que era a república? Da II República autoritária, da direita mais conservadora, que se afirmou pela memória assustadora da caótica primeira e da conseguida recuperação financeira do novo regime, pelo apoio pretoriano das Forças Armadas, pela polícia política, pela censura, pela repressão? A III República nascida de mais uma revolução contra a segunda, feita pelas Forças Armadas, e que só não conduziu a outra ditadura, agora da esquerda conservadora comunista, porque alguns políticos e alguns militares mais esclarecidos se lhes opuseram, criou um sistema democrático mas o condicionou à construção do socialismo, mesmo contra a vontade do povo não socialista, impôs o “
sistema republicano de governo”, mesmo se o povo o não quiser, gerou uma partidocracia que domina o regime e manieta a liberdade democrática, apregoa a “
ética republicana” mas pouco faz para impedir a falta de ética na actuação dos poderes do Estado e, nomeadamente, a corrupção e o nepotismo, nos empurra para a cauda da Europa em quase tudo, compromete o futuro e faz doloroso o presente para uma enormíssima parte da população, sem esperança e sem fé?
Seria demagogo, também eu, se não dissesse que muitas acções do regime republicano foram positivas em cem anos de vida. Mas o saldo, apesar disso, é negativo. E cada vez mais nos vamos dando conta desse facto, comparando-nos com as Monarquias europeias que foram evoluindo naturalmente sem roturas revolucionárias, a anos de luz de nós política, económica, social e culturalmente, e nomeadamente com a evolução da Monarquia espanhola, nascida depois da “
revolução dos cravos”, que acedeu à democracia quase ao mesmo tempo e nos leva, em todos os aspectos, uma enorme dianteira.
Para além dos discursos laudatórios e encobridores da verdade histórica, das exposições que procurarão mostrar as “
misérias” da Monarquia e o altíssimo “progresso” da República, do envenenamento dos nossos filhos nas escolas públicas com a distorção da História servida em concursos, palestras e outras actividades mais ou menos pedagógicas, mais ou menos lúdicas, de obras que já se deveriam ter feito, mas cuja desculpa para não as fazer é que não havia dinheiro, que agora jorra a rodos dos cofres de um Estado em crise financeira e económica, com milhares de desempregados e pessoas a viver abaixo do limite da dignidade humana e que, mesmo assim, estarão prontas ou não a tempo porque os portugueses e os lisboetas em particular não se deixam ludibriar com facilidade, para além desta parafernália de louvores estéreis e, nalguns casos, histéricos, o que fica? Nada. Porque o regime republicano está em estertor e um dia virá, talvez não muito longínquo, em que os portugueses - começando pelos críticos ilustres tão apreciados e divulgados que fazem diagnósticos acertados mas não atinam com a doença e muito menos com o remédio adequado - abrirão os olhos e mandarão para o caixote da História este regime e estas comemorações faraónicas, feitas com muitos milhões de euros que saem dos nossos bolsos.
[
Com a devida vénia ao diariodigital.pt]